14.7.12

Caravaggio e seu JUDITE e HOLOFERNES

(Paulo Afonso, 10 de julho 2012)
Recebi encomenda de um quadro sobre o tema de Judite e Holofernes. Os meus predecessores representaram-no após, quando Judite apresenta a cabeça cortada num prato. Eu queria bem mostrar o ato em si. Uma prostituta minha conhecida posou para a Judite e a criada velha do cardeal pela seguinte. Um ferreiro fez Holophernes. Para a expressão da cara fui ver muitas execuções públicas e observei muito bem as cabeças cortadas tombadas e guardei as expressões de terror.
(Caravaggio)
Esta tela retrata a cena em que Judite, revoltada com as ameaças do general assírio, Holofernes, a seu povo, tentando obrigá-lo a adorar o rei assírio Nabucodonosor em vez de Javé, aproveita-se do estado de embriaguês do tirano, depois de seduzi-lo. Aproxima-se de seu leito, segura-o pelos cabelos e decepa-lhe a cabeça, entregando-a para a serva que a joga num saco de provisões, convertendo-se depois em modelo para os judeus e, em especial, para os fanáticos religiosos.
Judite era uma viúva próspera e de boa conduta. Era bela nas formas e de presença encantadora. Para seduzir Holofernes, retirou os trajes de luto e botou uma vestimenta de festa e se introduziu no seu acampamento e bebeu com ele. O momento para assassinar o tirano era único, já que os judeus estavam prestes a se render diante das forças do inimigo, que, após o crime, saíram em debandada. Depois, ela regressou à Betulia com a cabeça do general e os judeus venceram o inimigo. Judite voltou da tenda do herege tão pura quanto ali chegara, sendo honrada por seu povo, e foi tida como uma heroína que deveria ser imitada. Esta passagem é narrada no Antigo Testamento, no Livro de Judite.
Caravaggio, ao pintar a cena, não seguiu fielmente a versão bíblica. Dela diverge, quando traz a serva para perto de Judite, no momento exato do crime. Ao colocar as duas mulheres juntas, contrasta a força da juventude com as cicatrizes da velhice. Enquanto a pele da heroína é sedosa e brilhante, a da serva é enrugada e opaca.
Judite demonstra determinação pelo modo como segura a espada e a cabeça de Holofernes. Também demonstra nojo ao afastar o corpo para trás, como se não quisesse se sujar com os respingos do sangue do tirano. Seu vestido dominical é simples, igual aos usados pelas mulheres do povo. Ela representa ao mesmo tempo sensualidade, brutalidade e coragem.
Do nariz da jovem parte uma ruga que vai morrer no meio da testa, passando entre as sombrancelhas contraídas, demonstrando concentração e firmeza. Seus olhos estão centrados no inimigo, ciente de que não pode cometer nenhum engano. O golpe é dado sem força, na parte lateral do pescoço, postando a autora o mais distante possível.
Embora a maioria dos pintores tenham representado Judite com a cabeça do tirano nas mãos, Caravaggio optou por retratar o momento exato da decapitação, já tendo a espada rompido 2/3 do pescoço, embora a vítima ainda pareça estar viva, com seus olhos aterrorizados e a boca aberta como a soltar um grito, deixando a obra cheia de realismo e crueza. É o mesmo grito visto em Caravaggio – Cabeça de Medusa.


 À época (Contrarreforma), existia um manual que aconselhava os artistas a observar o condenado, ao ser enforcado, para estudar as convulsões e o movimento dos olhos. Em muitos de seus quadros, Caravaggio apresentou cenas de decapitação (O Sacrifício de Isac, A Decapitação de S. João Batista, Salomé com a Cabeça de S. João Batista, Davi com a Cabeça de Golias…). Mas, para muitos, esta é uma das composições mais medonhas do pintor.
Na composição, os personagens parecem emergir das sombras, ganhando destaque com a luz que focaliza cada gesto. As figuras na composição estão dispostas em meio-corpo (a parte superior de uma figura humana desde a cintura), não existindo espaço entre elas, de modo que o observador parece tomar parte na cena. O drama desenvolve-se num primeiro plano fechado. Como em Caravaggio – A Morte da Virgem, uma cortina vermelha projeta-se entre Judite e Holofernes, dando mais teatralidade à cena da execução.
Fachos de luz iluminam os braços e a parte direita do rosto de Holofernes, que agarra com desespero o lençol já manchado de sangue, e destacam com pungência a bela Judite. A serva, atenta ao gestual de Judite, não expressa horror ou comoção, ao contrário, mostra aprovação, como se o ato fosse de vital importância. Nas suas mãos está o saco erguido, com a boca aberta, onde será colocada a cabeça do tirano.
A modelo escolhida por Caravaggio para representar Judite é a cortesã Fillide Melandroni, a mesma que posou para Santa Catarina de Alexandria e outras composições. Um ferreiro foi escolhido como modelo para Holofernes, embora algumas fontes digam que tenha sido o próprio Caravaggio.
Judite e Holofernes ou A Decapitação de Holofernes é uma das mais famosas obras de Caravaggio. 

 A decapitação de Holofernes por Judith tem sido objeto de muitas pinturas e quadros desde a Idade Média. Artistas das mais diferentes formas de arte vêm reproduzindo a história de Judite e Holofernes ao longo dos tempos, representando os seus diferentes momentos. Podem ser citados: Cristofano Allori, Donatello, Sandro Botticelli, Andrea Mantegna, Giorgione, Lucas Cranach, o Velho, Palma Vecchio, Michelangelo, Caravaggio, Tiziano, Antonio de Pereda, Goya, Horace Vernet, Gustav Klimt, Artemisia Gentileschi, Jan Sanders van Hemessen, Hermann-Paul, Gustav Klimt, entre outros. A cena do banquete foi igualmente retratado por Rembrandt no quadro Artemisa. A história também inspirou um poema medieval em inglês, a ópera Betulia Liberata, de Mozart, e uma opereta de Jacob Pavlovich Adler, entre muitas outras representações.

Ficha técnica:
Ano: c. 1597/1600
Material: óleo sobre tela
Dimensões: 145 x 195 cm
Localização: Galleria Nazionale d`Arte Antica, Roma, Itália
Enviado por José Luiz Fernandes

7 comentários:

Li Ferreira Nhan disse...

Olha, gosto de ver todas essas cabeças fora do pescoço... Maravilha esse post.
Faltou Klint. Hoje aniversário de 150 anos dele.

Lima disse...

Eduardo, obrigado pelo post. Muito bom.

Fatyly disse...

Impressionante...quanto decapitação...mas pelo relato não brincavam em serviço.

Belo trabalho, parabéns!

Silvares disse...

A tela de Caravaggio é uma verdadeira peça de reportagem fotográfica: o artista estava lá!

expressodalinha disse...

Sem dúvida. E já agora isto remete para o culto das cabeças cortadas, sobre qual já fiz um post (não sei onde).

Maria de Fátima disse...

impressionam-me esses golpes e os quadros que os retratam
aproveite para ver o que fizemos pelas festas de uma aldeia que tem por patrono João Baptista
(veja a apresentação que engendrei de quadros do santo e da sua salomé!)
http://lagospt.blogspot.pt/search?updated-max=2012-06-25T01:15:00%2B01:00&max-results=10

Li Ferreira Nhan disse...

Boa Fátima; gostei!
E também de ver você e a Mena!
Beijos as duas!

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