11.7.12

Guignard, Alberto da Veiga


(paulo afonso in alma carioca)


Alberto da Veiga Guignard
Paisagem de Minas, 1960, osm, 26 X 73 cm.
Este presente é o convite, que lhes faço, para penetrarem comigo nos meandros da elaboração de um quadro do famoso pintor Alberto da Veiga Guignard, um dos mais respeitáveis “monstros sagrados” de nossa arte, de quem tive a honra de ser amigo e procurador e cuja obra venho estudando há trinta anos, para só agora reunir num livro em três volumes toda essa pesquisa, a ser lançado no primeiro semestre do próximo ano.
Para quem não conhece Guignard, ele é um artista brasileiro nascido em 1896 em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, e morto em 1962, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Aos onze anos foi levado pela família, depois de perder o pai, para a Europa e lá, a partir dos dezoito anos, cursou na Real Academia de Belas Artes de Munique, Alemanha, os cursos de desenho e pintura, tendo feito cursos complementares em Florença e Paris. Em 1929, aos trinta e três anos, retornou ao Brasil, para aqui viver até o final da vida, primeiro no Rio de Janeiro, durante quatorze anos, e depois em Belo Horizonte, a partir de 1944, aqui vivendo dezoito anos e para onde veio a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, para aqui fundar e dirigir um Curso de Desenho e Pintura, que funcionou a princípio no Parque Municipal e depois em outros locais, para ser hoje a famosa Escola Guignard instalada em belo prédio no Alto das Mangabeiras. Passei a metade da vida como professor desta Escola.
Este mestre da pintura foi um dos mais importantes alicerces sobre o qual se apoiou a arte moderna brasileira para o seu florescimento, juntamente com Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Oswald Goeldi e outros. De seus ensinamentos, que até hoje têm dado frutos, saíram artistas como Yara Tupynambá, Mário Silésio, Chanina, Sara Ávila, Amílcar de Castro, Jefferson Lodi e tantos outros. Submetamos, pois, a uma análise em profundidade uma de suas mais belas pinturas, Paisagem de Minas.
Onde se localizaria este belo panorama de Minas, pintado por Guignard em 1960? Não sei ao certo, mas acredito que se trata de um fundo da Fazenda Boa Vista, na cidade mineira de Belizário, onde ele esteve algumas vezes e onde fez pelo menos três ótimas pinturas com temas daquela localidade. Mas isso não importa. Importa sim o fato de que hoje possamos admirar esta paisagem infinita tanto em sentido de amplidão, quanto em sentido de captação dos ritmos da vida, que aí flui de maneira simples e comovente.
Senão, vejamos. Tudo se passa numa quente manhã de domingo, o tempo mormacento meio abafado, com o sol escondido atrás das nuvens, e tanto, que não faz sombras. Algumas pessoas parecem dispostas a pegar a estrada que as leve à vila próxima, para assistirem à missa e passearem um pouco; a maioria, porém, prefere ficar ali mesmo naquele espaço aberto, conversando e se divertindo até a hora do almoço e, após ele, da merecida sesta, que as renove e prepare para a faina do dia seguinte. Vida simples, vida singela, sem grandes emoções e nada de imprevisível, mas feliz, sem contratempos, ali sorvida sempre em seu limite, nos parâmetros da simplicidade.
Descubramos agora como Guignard intuiu a composição deste quadro. Tudo nele faz transitar a nossa atenção da direita para a esquerda, não só devido à intenção direcional dos figurantes, que aí aparecem, mas também devido ao fluxo composicional, que insistentemente indica este rumo. Por outro lado, o acúmulo de nuvens, os dois coqueiros, únicas árvores grandes que há naquele espaço, e as construções relativamente grandes, todas essas formas dispostas na faixa da direita, criam um campo muito intenso de peso, o que poderia deixar a composição desequilibrada. Entretanto, o pintor lançou mão de alguns recursos, que evitam a ameaça. Em primeiro lugar, limitou o referido campo de peso a um terço de todo o espaço, exatamente o que fica ali à direita e desenvolveu o restante do quadro nos outros dois terços, o que já alivia a possibilidade de desequilíbrio, mas ainda não resolve, dada a intensidade de peso da primeira zona. Para conseguir afinal o necessário equilíbrio, pintou nuvens mais pesadas à esquerda e, magicamente, pôs bem ali no cantinho um homem montado em seu burrico, de maneira bem nítida e maior, porque mais próximo de nós, à frente de uma touceira, o que completa o equilíbrio do quadro.
Depois, podia dispor os figurantes como bem quisesse – e os dispôs como se estivessem num desfile, pois acima de tudo interessava-lhe pintar a alegria e a singeleza que deviam existir naquele domingo, mas igualmente, captar o lento desenvolvimento, que também leva nossa visão da direita para a esquerda. Tudo começa com a família do capataz, ele de pé, um pouco aquém da porteira, de blusa clara e calça azul, tendo ali perto a mulher, quatro filhos e duas galinhas brancas, em repouso ali na grama. À frente, quatro pessoas em grupo proseiam. Mais atrás, dois indivíduos de roupa branca observam. Um pouco adiante deles estão duas galinhas pretas e uma jovem pensativa de saia marrom e blusa vermelha. Ao seu lado, um homem de roupa clara, o qual, enquanto forma, é importantíssimo nesta composição, o que veremos mais adiante, carrega um objeto amarelo claro grande, que não sei identificar. À frente dele, uma galinha preta, um indivíduo com a mão esquerda no bolso do paletó escuro, o burro e seu montador em diagonal, o homem de camisa amarela e bermuda azul, outra galinha preta e, lá atrás, um indivíduo de calça azul e blusa bem esbranquiçada. Cá na frente, um rapaz de roupa clara mexe numa geringonça, sem dúvida uma espécie de máquina usada na fazenda. Adiante e mais atrás dois grupos de pessoas, as três primeiras de branco, dispostas em ângulo com o vértice acima delas, e os outros três de amarelo ocre, também em ângulo, com o vértice abaixo. Ora, estas seis figuras estão postas propositadamente numa formação definida, o motivo da qual veremos daqui a pouco. Finalmente, ao lado desses dois grupos, já no terminal da leitura do desfile, um homem de camisa escura e calça amarela segura alguma coisa com a mão esquerda, atrás de um peão que cavalga o seu burrinho, cuja importância para o equilíbrio do quadro já foi realçada. Observemos agora algo interessante: os únicos animais que aí aparecem são as seis galinhas e os dois burricos; senti falta de pelo menos um cachorrinho, quando uma fazenda sem pelo menos um cachorrinho é, no mínimo, uma coisa estranha.
Fiz questão de descrever pormenorizadamente a posição de cada figurante, para mostrar que, embora a disposição de todos os componentes pareça estar resolvida de maneira aleatória, assim não é. Quem tiver acompanhado linearmente a minha descrição do posicionamento de cada figurante, deve ter “sacado” que todos os elementos do friso de seres vivos estão dispostos num longo e bem claro ziguezague (o que explica a formação das seis figuras quase ao fim do cortejo, atrás do último burro, acintosamente postas como uma das partes do referido ziguezague). O mestre lançou mão deste recurso para dar movimento ao desfile, em oposição ao todo daquela temática de paisagem parada no tempo, tranqüila e despojada, beirando à monotonia não fora o conjunto de seres que a habitam, e tanto que, em decorrência da presença deles, certa aragem branca e fresca perpassa pela paisagem, humanizando-a, e nós, espectadores, até chegamos a senti-la.
Falei acima que o rapaz de roupa clara, que segura um objeto amarelo claro, é importante para a composição do quadro, sem o qual esta perderia seu eixo. Ora, se traçarmos uma linha vertical, que divida o quadro no meio, de alto a baixo, ela passará exatamente no meio de sua perna esquerda, o que mostra a centralização da figura, dividindo como um eixo a superfície em duas. Ora, isso é tão flagrante, que treze figuras humanas aparecem aí antes dele, e mais treze, depois; isto nos mostra que, com ele, vinte e sete figurantes habitam esta paisagem, sendo ele o centro, o eixo, o fiel da balança.
Por outro lado, Guignard nos mostra aí um céu carregado de nuvens, entre as quais o azul celeste transparece aqui e ali, escondendo o próprio sol, o que aumenta a sensação de calor e abafamento. Tal sensação se vê ampliada, quando notamos que este céu ocupa quase dois terços da superfície pintada, o que aquece não só o tempo, mas também a bonomia das pessoas que aí vão passando o tempo e se divertindo, para as quais, em sua simplicidade, tudo é alegria, sobretudo num dia de folga.
Quando o nosso mestre postou seu cavalete perante este panorama e pôs-se a observá-lo, procurando captar todos os seus pormenores, já elaborando mentalmente a espécie de composição que iria empregar, formalizando sua linguagem, queria sem dúvida registrá-lo; todavia, não como objetivo maior naquela oportunidade, como já lhe havia acontecido tantas vezes quando pintava paisagens por si mesmas, mas sim como simples meio continente da felicidade que anima esses colonos em dias para eles especiais – porque seu verdadeiro propósito aí é evidenciar aos nossos olhos todo o bem-estar que as pessoas carregam dentro de si. Afinal, para além das coisas aparentes, existe aí algo que não se represente numa determinada forma, mas que está em toda a superfície pintada: a alegria da vida.

1. G-001-AR-001-Autorretrato, Munique, 1919, des., MAM./ 2. G-008-AR-008-Autorretrato, 1931, osc, 62 X 50 cm., MAC-USP./ 3. G-023-AR-023-Autorretrato,1961, osm, 37 X 45 cm, MAM-RJ.
Para concluirmos, que os nossos leitores possam “curtir” comigo os três extraordinários autorretratos de Guignard. O primeiro, feito quando ainda estudante em Munique, figura impressionante de um jovem que olha para frente, para o futuro, no afã de enfrentá-lo. O segundo, feito no esplendor da juventude, quando já vivendo no Rio de Janeiro, mostrando na serenidade do sorriso a plena confiança no futuro. Finalmente, o terceiro, após tantas lutas e percalços, confessando-se um homem que, não obstante o dever cumprido – e com louvor, diga-se de passagem – aproxima-se de seu fim com amargura e decepção mostradas na sofrida fisionomia.
Enviado por José Luiz Fernandes

Um comentário:

expressodalinha disse...

Excelente pintura de um grande pintor.

AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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