4.9.12

Brasil, Portugal e Cesariny


Quadro de Mário Cesariny (1923-2006)


A cultura que nos une e nos afasta

Miguel Gonçalves Mendes*

A primeira vez que cheguei a São Paulo (totalmente dopado por comprimidos, tendo em conta o pânico que tenho de viajar de avião) eram seis horas da manhã. Recordo-me de ver outdoors gigantescos escritos em português e de, no meu estado alterado, achar que estava em pleno “Blade Runner”, numa espécie de futuro, ali representado como paralelo de Portugal. Dei comigo a pensar que se quisesse perspectivar uma concretização futura de Portugal, ela só poderia ser o Brasil.

Infelizmente o ser humano vive e alimenta-se de preconceitos. Para os brasileiros Portugal será sempre o país das piadas, das mulheres de bigode, das padarias e das carroças. Para a maioria é como uma espécie de Antigo Egito, um passado que já não existe. E não o é... Portugal existe.

Para os portugueses o Brasil continuará sobretudo a ser o país das novelas, do samba, da selva, das praias, do carnaval e das favelas. Como se na sua ausência de conhecimento, os portugueses não reconhecessem a arte erudita no Brasil e apenas tolerassem a popular. E, por isso, em Portugal permanecemos todos bem mais ignorantes. Não sabemos quem é Guimarães Rosa, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, entre outros.

Sempre que observo o encontro entre um português e um brasileiro a imagem que me vem à cabeça é a de dois primatas que se encontram, se estranham, se atraem, não percebendo que essa atração advém de serem da mesma espécie. No fundo somos espelhos um do outro. Apenas em lados distintos do oceano.

Nas minhas vindas ao Brasil tenho sempre ficado impressionado com as semelhanças entres os dois povos. Nas suas qualidades e nos seus defeitos que obviamente têm escalas distintas. E que por isso muitas vezes nos afastam.

A história boa ou má não pode ser apagada. Sabemos por quem somos dirigidos e por isso o que nos deveria unir, a relação pela qual deveríamos lutar, lado a lado, é a que diz respeito ao mundo da produção cultural. Porque aqui, sim, podemos construir um desígnio comum, já que a uma distância de sete mil quilômetros existem criadores que pensam e produzem na mesma língua. Que escrevem e cantam na mesma língua. Que fazem cinema na mesma língua. Que pensam e questionam o mundo na mesma língua.

E por tudo isto não posso deixar de falar em Mário Cesariny, cujo pensamento tão bem caracterizou a relação entre o Brasil e Portugal. Cesariny que foi (é, e será sempre) um dos melhores poetas em língua portuguesa, o expoente máximo do surrealismo português. No entanto, é totalmente desconhecido no Brasil.

Cesariny nasceu em Lisboa e morreu também lá, no ano de 2006, com 83 anos. Com 25 anos, em 1947, viajou para Paris, onde frequentou a Académie de la Grande Chaumière, e aí conheceu André Breton. Ainda nesse ano, inspirado por Breton, surge o Grupo Surrealista de Lisboa, criado em conjunto por Cesariny, António Pedro, José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e Alexandre O’Neill, como forma de protesto libertário contra o regime salazarista e contra o neorrealismo, dominado pelo Partido Comunista Português, de tendência stalinista. 

Todo o trabalho de Cesariny (tanto na poesia como na pintura) traduzia algo de sublime. Ele foi o homem que nos disse que deveríamos rir de tudo, que a homossexualidade era um desmesurado desejo de amizade, e que Portugal, por estar no extremo da Europa, não tinha grandes hipóteses como país. Ele era o homem que dizia que a grande obra dos portugueses (talvez a única) havia sido o Brasil: um país gigantesco sem divisão de raças, etnias etc.

Por muito ter refletido sobre esta vertente do seu pensamento, várias vezes me questiono sobre o que realmente nos afasta e o que faz com que dois povos tão semelhantes, que nascem da mesma matriz, perpetuem entre si um fosso gigantesco. Acho que tudo se baseia na desconfiança que cada um sente por si próprio.

No fundo o que pretendo dizer é que o desprezo ou o desdém que a maioria de nós sente pelo outro são fruto daquilo que infelizmente nos caracteriza: a obsessão, quase êxtase, por tudo o que vem de fora, e a manutenção pelas elites de um desprezo profundo pela cultura da qual fazem parte. Uma cultura obviamente com muitos defeitos. Mas uma cultura aberta, tolerante e universalizante que, por isso mesmo, vê e recebe melhor o mundo.

Lamento sinceramente que estes dois povos tão próximos se ignorem, quase se desprezem, porque isso só reflete a nossa falta de autoestima. Na verdade, cada piada que fazemos do outro é uma piada que estamos fazendo de nós mesmos.

*Miguel Gonçalves Mendes, cineasta português; dirigiu, entre outros, os documentários “José & Pilar” (2010), sobre Saramago, e “Autografia” (2004), sobre Cesariny.
(fonte: O Globo, 1/9/2012, Prosa&Verso)
Enviado por José Luiz Fernandes

8 comentários:

myra disse...

gostei muito, muito mesmo do texto!!!

João Menéres disse...

Eduardo

Pontualmente, já tinha trocado impressões com o José Luiz acerca deste texto.

O desenho do Cesariny é soberbo !

expressodalinha disse...

Eu como detesto piadas e anedotas não revejo-me inteiramente no texto. Creio que a relação de colonização ainda está muito presente nos brasileiros, bem como a désdem pela cultura da "terrinha". As elites gostariam de ter sido colonizadas pela Holanda ou UK. A coisa agravou-se com o complexo do "padeiro". Nós por cá vemos o Brasil como um país das telenovelas e do Carnaval. Há-de mudar. Estamos condenados a conhcermo-nos e entendermo-nos. A língua é o veículo, mas o sangue terá de ser a economia.

expressodalinha disse...

QUERO DIZER "REVEJO-ME INTEIRAMENTE". O "NÃO" ESTÁ A MAIS.

Selena Sartorelo disse...

Sempre quis ler sobre isso com essa fluência que foi escrita...bom saber o que de bom todos tem. Entre tantas coisas que percebo, concordo e repetiria munida por essa razão dita nesse texto praticamente tudo, descordo apenas da generalização feita por esse senhor.Nem todos mais pensam assim.
Se percebemos isso já se faz mais que hora passada de mudar.
Precisamos ampliar essa mentalidade e não se pode menosprezar a própria descendência antes de conhecê-la. Fomos colonizados pelos portugueses e depois disso pelo mundo, que veio e se tornou brasileiro. Coisas não deram muito certo e outras que dão até hoje..não é assim que se constrói uma civilização...Sempre tive duvidas da maneira que era contada a nossa história, mas nunca da história de nossos descendentes. Não existe novidades, sabemos que todos nós temos coisas melhores e coisas piores, a disposição em descobrir é uma outra questão. Mais fácil ás vezes é repetir o que outro disse por ignorância e falta de opinião. Adoro piada bem contada, mesmo que eu seja o assunto principal. Não gosto de deboche. Gosto de gente inteligente e engraçada, gente que acho ser de verdade, que importa lá saber o que ela tem, gosto de saber para onde foi e de onde vem, talvez até porque pretende ficar, mas do resto, que me importa lá...Poder conhecer e saber o que pensa essa ou aquela pessoa é o que me diverte e me faz muito bem...Se não agrada ou não interessa, existe a opção de se afastar,se conseguir entender que o que mais fascina nessa história são as semelhanças que temos e as diferenças que não entendemos na natureza que os povos tem. Somos índios, africanos, europeus, judeus, asiaticos, mulçumanos, americanos, somos latinos e egipicios também. Mas eu sou eu e você também. Podemos falar de politica numa outra hora rsrsr!!

Beijos globais.

Selena Sartorelo disse...

Amo ser brasileira...mas nem por isso acho que tudo aqui está bem.

Selena Sartorelo disse...

Ah Propósito..gostei de ver e de saber que esse senhor a que me refiro, por coincidência tem o mesmo sobrenome do meu marido e que depois do matrimônio anda ao lado do meu sobrenome. Mas confesso gostei mais ainda de saber que ele é cineasta e documentarista..gosto muito dessa arte e desse gênero.

Li Ferreira Nhan disse...

Não conheço Cesariny, nem sua obra.
Neste momento atual não estou apta emocionalmente a fazer um comentário com parcialidade sobre o assunto do título em questão. Ou sobre qualquer outro semelhante.
Me reservo o direito de ficar calada e seguir o velho conselho da minha amada avó; "É melhor o que fica por dizer".
Beijos.

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