12.8.17

Crônica do Alvaro Abreu


No olho do juiz

Ontem, ao entrar no carro para voltar pra casa, pouco depois de sair do dentista com a indicação de seguir adiante na avaliação das reais condições de um dos meus dentes, ouvi pelo rádio uma notícia de desanimar qualquer cidadão brasileiro de boa fé, sobretudo aqueles que são otimistas por natureza, sejam eles banguelas, usuários de dentadura, proprietários de dentes implantados ou portadores de dentes perfeitos. Foram poucas as palavras do locutor, mas o suficiente para acabar de vez com o que restava do meu sorriso prejudicado pelo efeito da anestesia.

Um juiz federal da comarca de Ponte Nova, em Minas Gerais, suspendeu a ação movida contra a Samarco e mais 22 pessoas acusadas por terem provocado a tragédia de Mariana, há quase dois anos. Esse senhor deve ser daqueles magistrados que não se dobram diante dos poderosos nem se afastam um milímetro sequer das letras dos parágrafos e eventuais incisos das normas brasileiras que foram aprovadas para assegurar o império da lei, doa a quem doer, inclusive aos parentes dos que morrem por decisões gananciosas e prepotentes.

Bem posso imaginar a alegria dos advogados que defendem as empresas e seus dirigentes, todos executivos e membros de conselhos, responsáveis por decisões tecnicamente erradas e humanamente irresponsáveis. Profissionais competentes, altamente perspicazes e muito bem pagos, eles  devem estar exultantes por terem conseguido identificar uma eventual falha de natureza processual de dimensões micrométricas e, com isso, em nome do direito de defesa de seus clientes, demandar a anulação do processo inteiro. Pelo que soube até agora, as razões alegadas são ridículas frente às consequências do vazamento de rejeitos industriais que provocou a morte de 19 pessoas, desgraçou a vida de milhares de famílias e estragou um bom pedaço do país. Essa usual e malandra estratégia de defesa me fez lembrar do que escreveu meu tio Newton, criatura de alma finíssima que esta semana ganha homenagens lá em Cachoeiro: “um cisco no olho pode ocultar uma montanha.”

Vitória 09.08.2017
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Um comentário:

João Menéres disse...

E é disso ( das dimensões micrométricas processuais ) que vivem os escritórios dos grandes advogados que sem ética alguma promovem a injustiça, quando não o crime.

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